Programa Editorial 2008-2009
José Mattoso
Directo da Medievalista


A revista on-line do Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa foi uma das primeiras publicações periódicas portuguesas da área da História apresentada apenas na net. Compreende-se que assim seja. Por um lado, a investigação científica do período medieval requer um grau de especialização que reduz fatalmente tanto os seus autores como o seu público. Se a revista fosse impressa, não se poderia esperar que a venda pagasse os custos de publicação e de difusão. É, pois, um instrumento produzido por poucos e destinado a um público reduzido. A net resolve bem a dificuldade daí resultante: torna-se acessível a todos os interessados e a sua produção pode ser artesanal.

Os pontos de vista aqui expostos só têm sentido se os conteúdos da revista forem de facto científicos. A lógica seria diferente se o nosso propósito fosse a divulgação. Com efeito renunciamos, em princípio, a escrever para um público muito numeroso, apesar de não desconhecermos a sua habitual curiosidade pelos temas medievais, no extremo oposto ao que adoptamos, teríamos aquele medievalismo que inspirou As bruxas de Avalon, O senhor dos Anéis ou as aventuras de Harry Potter. No meio, está a divulgação científica destinada ao público culto ou aos professores. Também não iremos por aí. Sem propor uma via hermética ou de especialização inacessível, convém, pois, tentar definir os nossos objectivos, mesmo que seja difícil alcançá-los sempre.

Embora não tivessem sido explicitados pelo fundador da Medievalista, o Prof. Luís Krus, que todos recordamos pelo seu modelar exemplo como investigador, como mestre e como colega (veja-se o Editorial do nº. 2), estamos certos que coincidem com os seus. Consideramos a publicação da revista como homenagem à sua memória. Assim, embora tentemos aperfeiçoar o que até agora se fez, e embora também nos anime o desejo de inovação, será na verdade um ideal próximo do seu aquele que nos orienta. Foi esse também o ideal que animou a equipa de coordenação editorial responsável pelos números anteriores desta revista, presidida por Maria Adelaide Miranda e sob direcção institucional de Bernardo Vasconcelos e Sousa (números 2 a 4).

Como poderemos exprimi-lo? Eis alguns valores e orientações: Rigor científico, na sua dupla acepção, isto é exigência crítica e progresso, em termos científicos, relativamente ao «estado da arte» anterior. Do ponto de vista temático: preferir abordagens interdisciplinares que envolvam enquadramentos conceptuais inspirados em disciplinas diferentes da História, como a Antropologia, a Arte, a Literatura, a Linguística, a Sociologia, a Arqueologia, as Técnicas Laboratoriais, etc.. Sem qualquer propósito de criar escola, tanto admitimos a História estrutural como a História factológica, a História das Ideias como a História cultural. Mas preferimos tudo aquilo que diga respeito às questões fundamentais, isto é o conhecimento das estruturas e do seu funcionamento, as grandes permanências e as grandes mutações. Também nos interessam os estudos inovadores por comparação com os temas e métodos explorados pela geração anterior, fossem eles realizados em nome dos princípios propostos pelos grandes autores do pós-guerra ou dos anos posteriores como a «Nova História», a História das Mentalidades ou a História narrativa de raiz anglo-saxónica. Interessam-nos, finalmente, aquelas investigações que, de longe ou de perto, contribuem para compreender os dramáticos fenómenos que a nossa sociedade tem de enfrentar, sobretudo aqueles que se prendem com a identidade europeia e as identidades nacionais maioritárias ou minoritárias, de alcance variável conforme a escala (regional, nacional, continental, mundial) a que se dão as permanências e as mutações. Por mais alheios que os acontecimentos actuais pareçam em relação com Idade Média europeia, têm com ela, na maioria dos casos, uma efectiva conexão por intermédio do nascimento da civilização a que pertencemos quer queiramos quer não. Na verdade, a compreensão da nossa condição de europeus implica o estudo da maneira como se formou esse lastro que connosco arrastamos e que marca a nossa identidade, para o bem e para o mal. Basta evocar os sangrentos conflitos da Palestina, dos Balcãs e do Cáucaso para perceber que o conhecimento do passado é indispensável para a escolha das soluções políticas; a situação actual não tem só razões económicas, sociais ou geoestratégicas, mas também históricas.

Assistimos actualmente a uma certa revolução dos objectivos e dos métodos da investigação em História medieval, resultante, em parte por um certo esgotamento das perspectivas da historiografia francesa, e em parte pelo vigor revelado pela historiografia anglo-saxónica de ambos os lados do Atlântico. Algumas questões de tipo institucional e administrativo, por exemplo, tornaram-se significativas quando relacionadas com o exercício do poder e da autoridade, não só política como também religiosa; a História das Ideias, associada à Antropologia, forneceu novas perspectivas para explicar, por exemplo, a evolução da concepção do pecado ou o nascimento da consciência individual. A eclosão das identidades nacionais, considerada como um processo evidente pela historiografia nacionalista dos séculos XIX e XX revela-se um fenómeno completamente diferente do descrito pelos medievalistas de então. Do mesmo modo, algumas das ideias ou representações mentais que há 20 ou 30 anos considerávamos seguras, devem hoje ser abandonadas ou matizadas. Por isso, é importante que os nossos medievalistas continuem a ler e estudar com olhar crítico o que se publica noutros países. Deve haver o cuidado de manter o inegável progresso alcançado pela historiografia portuguesa depois de 1980 quanto ao conhecimento da produção científica internacional.

Tais são, em termos globais, os nossos objectivos. Que meios tentaremos adoptar para isso, é outro problema. Sem pretendermos ser exaustivos, mencionemos alguns: Cuidar do nível científico dos artigos, submetendo-os à apreciação dos membros do Conselho Editorial cuja área de especialização seja mais próxima do tema abordado; procurar colaboração de autores estrangeiros cuja investigação seja inovadora; preferir temas de carácter interdisciplinar e inspirados pelas orientações recentes da investigação internacional; evitar publicar artigos de carácter descritivo ou com alcance reduzido do ponto de vista do âmbito espacial e temporal, excepto se trouxerem alguma inovação do ponto de vista metodológico; consagrar algumas páginas à discussão científica e à recensão crítica de obras recentes; abrir algum espaço para as intervenções dos leitores; produzir sempre que for útil levantamentos bibliográficos temáticos.

Não nos faltam, pois, grandes ambições. Na verdade, tentando evitar qualquer espécie de presunção, consideramos necessário sermos exigentes connosco próprios. Não faz parte do nosso programa publicar por publicar, ou recompensar com a oportunidade da publicação os alunos capazes de produzir razoáveis exercícios escolares, embora reservaremos uma rubrica intitulada “notas breves de investigação” para a apresentação de trabalhos desse nível que se destaquem pela originalidade do tema e da metodologia, ou ainda pela abrangência do conteúdo. Se o conceito de «paixão» não estivesse tão degradado como todos sabemos, exprimiria bem o espírito que nos anima. Assim, contentemo-nos com a ideia de Guilherme de St-Thierry acerca do afecto e da razão: amamos para podermos compreender, porque, como ele diz, amor ipse intellectus. Queremos fazer, e fazer o melhor possível aquilo de que gostamos.

contacto
Instituto de estudo medievais
medievalista@fcsh.unl.pt

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